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Junta de Freguesia - História da Terra

 

FREGUESIA DO GRADIL

 


 

"HISTORIAL"

 

   Gradil, certamente uma das mais pequenas freguesias do município de Mafra, encontra-se situada na margem direita da ribeira de Pedrulho, afluente do rio de Cucos. O seu território, que ascende aos cerca de 829 hectares, está cercado pelas freguesias de Azueira, Enxara do Bispo, Vila Franca do Rosário, Malveira, Mafra e Sobral da Abelheira.
   A primeira referência escrita que se conhece desta localidade reporta-se ao século XIV, concretamente ao ano de 1320. Este documento, assinado por D. Dinis, trata-se da doação de um extensa área ao tesoureiro da coroa, Pedro Salgado, a qual inclui a herdade de Gradil, facto explicitamente referenciado.
Gradil, por morte do referido tesoureiro, reverteria novamente para a coroa, recebendo, em 1327, das mãos de D. Afonso IV, um foral, que viria a ser, séculos mais tarde, revalidado pelo monarca D. Manuel I. Esta carta régia contribuiu assim, de forma decisiva, para a ascensão de Gradil a vila.
   Em termos eclesiásticos, esta povoação foi curato de apresentação do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, tendo passado, posteriormente, para a posse da Universidade de Coimbra. Chegou ainda a pertencer ao concelho de Azueira, até sensivelmente 1855, altura em que transitou para o de Mafra, dada a sua extinção.

 

    O mundo faz-se de pequenos universos, representações efémeras de núcleos sociais, paixões mundanas, quotidianos varridos pelo tempo, retalhos. As pessoas, meros actores, circulam pelo palco da vida representando os seus papéis. No entanto, há aqueles cuja existência transcende a do comum mortal. Rosa Damasceno fez da representação a sua vida, uma vida em vários actos, da qual se fará uma breve retrospecção.

   Apesar de ser nativa do Porto, cidade onde nasceu a 23 de Fevereiro de 1849, foi em Gradil que a actriz passou uma grande parte da sua vida. Aquando da morte do pai, Rosa e a mãe mudaram-se para o Alentejo, dando início a uma carreira que se prometia promissora. Rosa entrou, então, para uma companhia ambulante, com a qual percorreu diversos teatros da província. Foi numa dessas representações que Marcolino Pinto Ribeiro, antigo actor do teatro D. Maria II, fascinado pelo seu talento, a aconselhou a ir para Lisboa, juntamente com a sua mãe.
   Já em Lisboa, Marcolino apresentou-a ao comissário régio, Luís da Costa Pereira, que a admitiu como actriz, dando-lhe um papel numa das peças em cena na altura. Entretanto, decorria a construção do Teatro da Trindade, e o seu director, Francisco Palha, ciente dos seus dotes artísticos, propôs-lhe escritura, a qual imediatamente aceitou. No dia da inauguração do teatro, a 30 de Novembro de 1867, Rosa estreou-se com as duas peças que aí se representaram, «A Mãe dos Pobres», um drama em cinco actos, de Ernesto Biester, e «O Xerez da Viscondessa», um comédia representada em apenas um acto, traduzida pelo próprio director do teatro.
   O seu êxito foi inquestionável. Para além destas duas obras, representou um grande repertório, cultivando também a opereta, em que se distinguia pela sua voz maleável e pelo seu timbre melodioso. Todavia, foi no Teatro D. Maria II que a sua carreira desabrochou, tornando-se numa das actrizes mais acarinhadas e solicitadas pelo público. Foi também neste espaço que aumentou consideravelmente o seu reportório. A última e derradeira peça que representou foi «O Adversário». Em 1904, a 5 de Outubro, correram-se definitivamente as cortinas para Rosa Damasceno. 

 

   O orago desta freguesia é São Silvestre. O seu longo pontificado, que se prolongou por um período de 21 anos, decorreu paralelamente ao governo do Imperador Constantino. Esta foi uma época de profunda transição para a Igreja enquanto instituição religiosa, passando das trevas à luz, que é o mesmo que dizer, de 250 anos de clandestinidade e perseguições a uma organização e parâmetros correctamente estabelecidos. A Igreja passou a funcionar como um verdadeiro organismo, que persistiria por alguns séculos.
   Não obstante a intromissão do poder civil nas questões eclesiásticas, isto é, do imperador, e algumas consequências nefastas, os resultados da harmonia que se fazia sentir entre o papa e o soberano demonstraram-se francamente positivos. De facto, a boa relação entre ambos materializou-se num vasto número de edifícios eclesiásticos, onde se destacam duas das mais importantes basílicas romanas, uma em honra de São Paulo, na via Ostiense, e a outra em honra de São João.

  

"POPULAÇÃO"

 

   A população gradilense, relativamente ao volume de habitantes apresentado em 1991 e à sua extensão, aumentou gradualmente. Nos últimos anos, passou de 770 para 897 residentes, sendo mais de metade mulheres. Os eleitores, por seu turno, manifestam uma tendência regressiva, a este fenómeno que pode ser observado tendo em conta duas perspectivas distintas. Esta diminuição pode significar um envelhecimento da população, que se traduz num cada vez menor número de jovens a recensearem-se, ou simplesmente por uma actualização dos cadernos eleitorais.

 


"DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO"

 

   A espinha dorsal da economia Gradilense, e tratando-se esta de uma região essencialmente agrícola, abundante em vinhedos e pomares, é a agricultura. Esta vertente favoreceu a implementação da caça, uma tradição que se reporta ao reinado de D. João V, e que teve como consequência a proliferação de matadouros. Convém não esquecer, todavia, o turismo, que tem impulsionado a freguesia a níveis nacionais e mesmo internacionais.
 


   O apoio à acção social deve ser repartido quantitativamente pelas organizações de base que actuam nestas áreas específicas, devendo este ser acompanhado de perto pelas entidades competentes. As instituições mais relevantes neste domínio são:
 

  • Casa de Repouso São Silvestre
  • Casa Mãe de Gradil (Centro Social e Paroquial São Silvestre)
  • Casa do Povo de Gradil
    Valências _ Orquestra Ligeira do Gradil
    Escola de Musica 
    ATL
    Centro Convívio


   O Serviço Nacional de Saúde é responsável pela coordenação de um considerável número de centros de saúde espalhados por todo o território nacional. Em paralelo aos cuidados essenciais de saúde, os utentes têm ao seu dispor, entre outras, consultas de aconselhamento e planeamento familiar, questões a que Gradil não é alheio.

  • Centro de Saúde de Mafra — Extensão de Saúde de Gradil

   As políticas educativas, e por se tratar de uma questão social, implicam um acompanhamento permanente e uma integração activa da sociedade e dos cidadãos, assegurando, para tal, o estabelecimento de espaços como os que se seguem:

  • Jardim-de-infância de Gradil
  • Escola do 1.º Ciclo do Gradil

 

"CULTURA E DESPORTO" 

 

   Veículos de transmissão de valores humanos e sócio-culturais, as associações têm vindo a preencher uma lacuna de que a sociedade actual padece: a falta de acompanhamento dos jovens no seu meio. Em articulação com a população e as entidades competentes, grupos como a Orquestra Ligeira do Gradil têm concretizado um trabalho exemplar neste âmbito, não desmerecendo, obviamente, o esforço de, por exemplo: 

  •  Desportivo União Gradilense

 

"DESENVOLVIMENTO E TURISMO" 

 

   Este local encerra uma beleza única. Aqui, onde a natureza e o betão se fundem numa harmonia quase perfeita, uma paleta de cores compõe a paisagem, coroada pelo verde das árvores e orquestrada pelo doce cantar dos pássaros. Isto porque grande parte da área de Gradil, para além do património arquitectónico, é ocupada por extensas zonas de preservação da natureza e da vida animal, sendo as mais relevantes e, simultaneamente, extraordinárias:

 

  • Tapada de Mafra


   Criada no reinado de D. Afonso V, após a construção do Convento, a Tapada Nacional de Mafra serviu como parque de lazer do monarca e da sua corte. A ocupar uma área superior a oitocentos hectares, onde coexistem várias espécies de aves, anfíbios, répteis, mamíferos, entre veados, gamos, javalis e raposas, e uma fauna extremamente rica em espécies arbóreas, é hoje um majestoso património natural de características únicas.
   Sem nunca ter perdido a sua vocação inicial, e sendo esta uma Zona de Caça Nacional, a Tapada aguarda, agora, a classificação para Zona de Caça Turística. Em condições ímpares, e tendo em conta o total respeito pela natureza, o exercício da caça tem por objectivo um correcto ordenamento cinegético, uma vez que aqui não existem predadores, sendo necessária a manutenção de um certo equilíbrio entre a população animal e o seu ecossistema. 
   Aqueles que foram, noutros tempos, os retiros dos reis D. Luís e D. Carlos, como o Chalé, o Pavilhão da Caça e o Jardim do Celabredo, de traça romântica, a par de alguns edifícios de construção mais recente, em que se inclui a Casa de Campo e o Pavilhão de Eventos, são, presentemente, utilizados para a concretização de eventos festivos ou reuniões de carácter empresarial. Todas as actuais edificações sofreram uma adaptação arquitectónica, que previu a manutenção do plano original.
   Neste espaço a história e a natureza andam constantemente de mãos dadas, visível a cada passo e ainda mais nos passeios pedestres, a cavalo ou bicicleta, ou nas visitas em comboios articulados e percursos de foto-orientação, nos quais os visitantes orientam-se mediante a interpretação de um bloco de fotografias sequenciais. Paralelamente a estas decorrem outras actividades de lazer, tais como o tiro de arco e besta, e a observação de aves.
   Uma componente de grande importância para a Tapada foi também o desenvolvimento e a implementação de um Sistema de Gestão Ambiental. Assim, no seguimento de uma política ambiental rigorosa, procede-se à recolha selectiva dos lixos aqui produzidos diariamente, optando-se por fontes de energia limpas ou renováveis, a par de todo um trabalho prévio de gestão florestal. Por tudo isto, e pela sua qualidade enquanto produto turístico, a Tapada de Mafra foi galardoada, pela União Europeia, com o Prémio Tourfor.

 

Centro de Recuperação do Lobo Ibérico

 

   Fundado em 1987, o CRLI, como também é conhecido, tem por finalidade a criação de boas condições de cativeiro a lobos que não possam viver em liberdade, ao mesmo tempo que tenta apagar a imagem negativa que a opinião pública têm deste mamífero, muito em parte graças à comunicação social. O Centro tenta também incutir nos alunos e investigadores um interesse por esta espécie, no sentido de os estimular a desenvolver estudos sobre o seu comportamento. Estes ensaios, em conjunto com pesquisas desenvolvidas na natureza pelo Grupo Lobo, são o fundamento de uma intensa campanha de divulgação ambiental.
   A sobrevivência e funcionamento do Centro dependem grandemente do apoio científico do Grupo Lobo, uma associação portuguesa sem fins lucrativos dedicada à conservação do lobo e do seu ecossistema. Outras fontes de apoio advêm de organizações internacionais espalhadas por todo o mundo, mas essencialmente do Programa de Adopções, através do qual se tem acesso ao centro, uma vez que este está aberto unicamente aos sócios do Grupo Lobo, aos pais adoptivos ou interessados em sê-lo. Este projecto destina-se, assim, à obtenção de fundos para a manutenção dos lobos.
Igualmente crucial para a continuidade de tão importante projecto é o Programa de Voluntariado, destinado a todos aqueles que se preocupam com a conservação da vida selvagem. Os voluntários, que irão integrar as actividades do CRLI, devem zelar pelo bem-estar dos lobos ali existentes. Para tal eles vivem em cercados de grandes dimensões, em tudo semelhante ao seu habitat natural. Este facto torna difícil a sua observação, embora o auxílio de binóculos ajude a vislumbrar os lobos em condições únicas, e raramente disponíveis a qualquer pessoa.

 

Igreja de São Silvestre — Igreja Matriz

 

   Não obstante a data da sua construção remontar ao século XVII, podem ser encontrados, no interior deste templo, alguns pormenores nitidamente quinhentistas. O ano de 1760, que figura numa inscrição colocada sobre a porta da sacristia, refere-se, presumivelmente, à época em que foi reconstruída a igreja, em virtude do terramoto de 1755. No entanto, merece especial referência o órgão de tubos da autoria de António Xavier Machado e Cerveira, construído em 1801.
   As suas paredes estão decoradas com azulejos seiscentistas do tipo tapete, com dois púlpitos de pedra rosada a elas adossados. Outro dos elementos mais significativos é a pia baptismal, da época de quinhentos, ao lado do qual se encontram duas pias de água benta e um arcaz de sacristia seiscentista. O altar-mor, de traçado setecentista, encerra uma tela evocando o baptismo do Imperador Constantino pelo Papa São Silvestre.

 
 
Quinta de Santana - Capela de Santa Ana

 

   Aberta somente em ocasiões especiais, esta ermida, inserida numa propriedade privada, foi fundada em 1630. O seu nome ficou a dever-se ao conjunto de azulejos do século XVII que revestem todo o interior, e cujo mote foi, exactamente, a hagiografia de Santa Ana. Também no altar-mor existe uma imagem desta santa, assim como uma de São Joaquim e de Santa Rosa. O seu fundador, Francisco Roiz, encontra-se aqui sepultado.

 


"TRADIÇÕES"

 

   Segundo Miguel de Cervantes, um dos expoentes máximos da literatura espanhola: "Um provérbio é uma frase curta baseada numa longa experiência", feita de pequenas experiências de vida, de morte, de momentos, de lembranças, recordações, memórias, ocasiões, a que não se furta Gradil, com alguns dos seus ditados alusivos a São Silvestre.

— Quem vai ao São Silvestre vai numa ano e vem no outro e não se despe.
— Dia de São Silvestre, o bacalhau é peste.
— Dia de São Silvestre, nem no alho nem na reste.
— Dia de São Silvestre, quem tem carne que lhe preste.

 

   Alimentar a fé, a alma, a crença ou somente a curiosidade, é uma das funções a que se destinam as feiras e romarias, expressões religiosas tão caras ao povo de Gradil, que tem na Festa de Nossa Senhora da Conceição, realizada a 8 de Dezembro, e na Festa do Senhor dos Passos, que acontece todos os anos no penúltimo Domingo da Quaresma, dois dos cernes da sua cultura.

 

   Era nas feiras que os homens, principalmente aqueles que se dedicavam ao cultivo da terra, obtinham notícias do exterior, de um mundo de que muitas vezes estavam apartados, ouvindo histórias de mercadores, das suas aventuras e desventuras, contribuindo estas para o nascimento de um sentimento nacional, patriótico.
   Nos dias que correm talvez a sua função seja meramente comercial, mas a sua importância não diminuiu, podendo mesmo falar-se num aumento, facto visível em feiras como a de São Silvestre, que recebe todos os anos cada vez mais visitantes. Estes vêm pedir ao patrono dos animais, no dia 31 de Dezembro, protecção para o novo ano que principia.


"GASTRONOMIA"

 

   A caça de espécies cinegéticas, cultivada pelos reis e pela corte que frequentava habitualmente a Tapada de Mafra, constituiu a génese de um acervo de pratos majestosamente preparados, em que o coelho é rei. Digno de qualquer monarca é, por exemplo:


Feijoada de Coelho Bravo

 

Ingredientes:

1 Tigela de feijão branco
1 Coelho bravo médio
Sal
Pimenta
3 Dentes de alho
1 Copo de vinho branco
Azeite
3 Cebolas
Salsa
Pão torrado ou frito

Preparação:

 

   De véspera, demolha-se o feijão. Limpa-se o coelho, corta-se aos bocados e tempera-se com sal, pimenta, alhos picados e o vinho branco, deixando-se a marinar durante algumas horas. Entretanto coze-se o feijão juntamente com uma cebola descascada.
   Cobre-se o fundo de um tacho de barro com azeite, a que se juntam duas cebolas picadas, os pedaços do coelho, a marinada e, ainda, um ramo de salsa. Leva-se ao lume a refogar, virando a carne várias vezes. Quando começa a secar, rega-se com algumas conchas da água de cozer o feijão.
    Deixa-se cozer a carne até estar bem macia, adicionando-se, de seguida, o feijão com calda. Depois de deixar apurar bem, rectificam-se os temperos e retira-se a salsa. A feijoada é servida polvilhada com salsa picada e acompanhada com fatias de pão torrado ou frito.

 

 


 

  
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